23 de out de 2009

Magia: Ritual, Poder e Propósito - Parte I


Capítulo 1 –Algumas definições e um exame geral


Neste mundo imperfeito, onde é muito fácil entender mal ou ser mal interpretado, é necessário, quando escrevemos sobre um determinado assunto como Magia Cerimonial, definir cuidadosamente alguns termos. Mas, antes de dar qualquer definição, vamos discutir As idéias de magia popularmente aceitas. Agindo assim, eliminaremos muitos dos aspectos obscuros do pensamento, exatamente como precisamos fazer quando afastamos a vegetação tropical ao redor de um templo asteca oculto, e, então, se revelam as suas verdadeiras proporções e aparência.


A comparação é adequada, pois o Templo da Magia tem sido inflacionado com um crescimento desinformado e cheio de idéias supersticiosas ao longo dos tempos, que, no mundo ocidental pelo menos, sua verdadeira feição e natureza se perderam. Somente entre os ignorantes e supersticiosos, por um lado, e um certo núcleo de magos informados e instruídos, de outro, é que alguma idéia da verdadeira natureza da magia foi preservada; e, no primeiro caso, ela foi tristemente distorcida e mantém relação ínfima com os fatos
atuais.


Como os estudantes de arqueologia e os expoentes máximos de religião comparada nos informam, a magia remonta aos primórdios da vida do homem neste planeta. Todos os sistemas religiosos, com exceção possivelmente de algumas seitas protestantes e do budismo meridional, fizeram durante um certo período, uso da magia cerimonial. Aqueles que estão interessados nos aspectos históricos desse assunto encontrarão, listados na bibliografia, no final deste livro, trabalhos de renomados experts nesse campo; entre eles estão o de Sir James Frazer, cujo o Golden Bough se tornou um clássico. 


Se as autoridades forem cuidadosamente estudadas, observar-se-á que, falando de maneira geral, cada religião assimila o melhor da religião antecedente, e o resto é deixado para a ralé ignorante e para aqueles sacerdotes da velha religião que não se conformam o novo. À medida que a nova religião se organiza, ela começa a perseguir os remanescentes da antiga, e esses remanescentes são empurradas para o submundo. Essa situação aflorou quando o Cristianismo emergiu de sua infância e se tornou a religião dominante do Ocidente. A velha religião desintegrou-se, e a Igreja Católica absorveu muito de sua filosofia e de seu ritual, impregnando, gradualmente, todos os níveis da sociedade, até que os seguidores da velha fé fossem apenas seres rústicos, residentes em lugares distantes e isolados. Esses rústicos ou pagani, não versados na filosofia de sua religião, transmitiram uma face deturpada da mesma. Eles nunca deixaram de ser perseguidos cruelmente, mas seu número era constantemente acrescido por muitas fontes, incluindo aqueles que se rebelaram contra as posições papais.


Quando, contudo, o impulso do Renascimento tornou possível quebrar o jugo de Roma, as mais piedosas Igrejas reformadas estavam tão intolerantes quanto Roma havia sido em sua perseguição às bruxas, feiticeiras e magos. A história da Europa do século XI ao XVII constitui-se em leitura aterrorizante. Com a emergência da “Idade da Razão”, a crença popular no poder maligno do mago começou a desaparecer. Simultaneamente, nos círculos protestantes ao menos, a crença religiosa começou a se deteriorar em uma formalidade que tinha muito pouca força mobilizadora.


Esse nível de mediocridade na Inglaterra alcançou o apogeu na era vitoriana, quando a Física, pela boca de seus maiores expoentes, declarou “não existir lugar no universo para fantasmas”, e o presidente da Sociedade Real declarou: “Na matéria eu vejo o potencial e a promessa de toda a vida.” Porém, com os crescentes conhecimentos acerca do universo que o desenvolvimento moderno da ciência trouxe, tais idéias tiveram que ser consideravelmente revistas, e físicos modernos como Eddington, Jeans ou Einstein, apresentaram uma idéia da natureza e um propósito do Universo que podem ser facilmente aceitos pelo mago. Levando-se em consideração a diferença de terminologia, os magos vêm falando a mesma coisa há séculos!


É, no entanto, com as modernas escolas de psicologia, mais particularmente a associada ao nome de C. G. Jung, que o mago encontra maior proximidade com o pensamento moderno. Pelo balanço curioso do pêndulo moderno, percebido por Heráclito, chamado de enantiodromia*, o que foi subjugado e obrigado à clandestinidade começa agora a aflorar para desalento dos ortodoxos 
*enantiodromia – de enatios, do grego, contrário, oposto. Seria a capacidade de certas forças, reprimidas por suas antagonistas, virem a substituí-las em movimento pendular. Por exemplo, a condenação medieval ao culto do corpo sendo substituída por esse culto por meio da recuperação dos ideais estéticos do renascimento(N.doT.)
Mas, embora reprimida e perseguida ao longo dos tempos, a magia nunca deixou de existir no mundo ocidental. A Igreja Romana adaptou habilidosamente muito da velha magia para seus próprios propósitos; nos bastidores, a magia tradicional corria para um dos rios clandestinos das terras altas, emergindo aqui e ali à luz do dia, para então desaparecer sob a superfície.


Uma dessas emergências foi a Ordem do Templo, cujos membros, os Cavaleiros Templários, foram aliviados de boa parte do ódio nutrido por eles pelos seus perseguidores; os albigenses na França foram outra; os Irmão da Dourada e Rosa Cruz, os Iluminados, os Magnetistas, os Teosofistas e numerosas outras ordens mágicas e fraternidades que surgiram na metade do século XIX estão também entre esses movimentos emergentes. Desses, a mais famosa e a mais iluminada, do nosso ponto de vista, é a Ordem da Golden Dawn*. Fundada sobre supostas bases rosacruzes, ela conseguiu realizar uma síntese admirável de todas as ramificações oscilantes da magia; e, a despeito de muitas vicissitudes e divisões, ainda permanece fonte da Tradição Mágica Ocidental.
*Golden Dawn(Aurora Dourada) – ordem hermética fundada por mestres maçons na Inglaterra, que exercem grande influência sobre todo o desenvolvimento do Ocultismo no Ocidente, influência essa que perdura até hoje, ainda que de forma residual(N.doT.)
O que foi exposto já é suficiente para uma retrospectiva geral. Agora, vamos às nossas definições.


Meu dicionário fornece uma definição popular de magia, “a arte de usar causas naturais para produzir resultados surpreendentes”, definição que cobre um campo bastante vasto! Ela poderia ser aplicada a um selvagem diante do rádio, do telefone ou do avião, embora em tais casos ele concluísse tratar-se de causas sobrenaturais em ação! Um mago moderno, que escreveu bastante sobre o assunto, definiu a magia como “a arte de provocar mudanças pela vontade”. Novamente estamos diante de uma definição muito ampla – ela engloba a ação de trabalhadores tanto manuais quanto intelectuais que também, produzem mudanças com sua vontade. Na opinião desse escritor, a melhor definição de magia é aquela dada por outro mago moderno, que a definiu como “a arte de causar mudanças na consciência pelo poder da vontade”. Essa está de acordo com a teoria e a prática da magia, e podemos empregá-la com vantagem aqui, com devido reconhecimento à sua geradora, Dion Fortune, que foi, entre outras coisas, líder de uma bem organizada fraternidade iniciática.


Tendo chegado a uma definição conveniente, somos então confrontados com outra dificuldade. O que queremos dizer com “mudanças na consciência”? Será necessário, então considerar (a) o que é consciência e (b) o que se quer dizer com essas mudanças de consciência. No próximo capítulo consideraremos a moderna visão psicológica da personalidade humana. Deve ser lembrado, contudo, que a psicologia não está suficientemente desenvolvida ainda como ciência para ser considerada uma estrutura unificada de conhecimento.


Existem diversas escolas de psicologia diferindo em suas explicações dos fatos observados. Os seguidores de Freud colocam ênfase em um aspecto da vida; os seguidores de Jung enfatizam outro; os discípulos de Adler, um terceiro. Como será visto adiante, a inclinação do autor é para a escola de C. G. Jung.


Aliás, os escritos de Jung estão em tamanha sintonia com as tradições mágicas, que para nós é fácil compreender o sentimento, por parte de alguns colegas seus mais materialistas, de que ele tenha “caído no misticismo”. Os resultados dessa queda parecem ter sido satisfatórios do ponto de vista terapêutico, e a opinião é a de que Jung é o Darwin da Nova Psicologia. Temos consciência de que essa não é uma idéia original – outros também já o disseram -, mas nunca é demais repetir!


Continua... Cap 2 - A Personalidade Humana



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A Magia e o Mago – E. W. Butler
Ed Bertrand – 2a Edição
Magia: Ritual, Poder e Propósito

1 comentários:

Qelimath disse...

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